Meu tempo de Criança
Outro dia meu filho em conversa aqui em casa dizia que sempre falo do meu tempo de criança, e algumas pessoas comentam que falo pouco da figura de meu pai. É assim para mim o período em que fui criança é que tive o alicerce educacional muito ligado a minha mãe. Meu pai ausentou-se de casa ainda na minha infância eu tinha apenas 6 seis anos.
Minha mãe e meu pai são parentes próximo e sim são primos. E desde infância foram pressionados a casar, e assim constituíram o lar da qual nasci. Sou portanto o filho mais velho do casal, quando de meu nascimento o meu pai tinha 18 anos e minha mãe 20 anos.
E casa de minha infância ficava próximo a Avenida Murchid de Homsi, em São José do Rio Preto-SP, onde hoje é uma clinica de problemas cardíacos, mas nasci exatamente na Rua Regente feijó n.1002, onde hoje reside o meu irmão.
Mas a minha lembrança é sempre de onde hoje está instalada a Avenida. Ali era antes apenas um brejo e a entrada de casa era pela Rua Vital Brasil, o que existia no terreno era uma chácara. Onde havia um gramado até chegar em casa na minha casa havia uma escada de madeira pois onde via meu pai chegar em casa e sempre ele vinha sóbrio ou embriagado. E sempre caia na porta de casa. E muitas vezes dormia ali mesmo.
Eu tentava levá-lo para dentro da casa, mas era apenas uma criança de três, quatro, cinco anos, e assim confesso que não conseguia. Minha mãe dizia deixe ele ai, que ele na madrugada levanta e entra.
O dia que meu pai não bebia ele chegava e não trazia nada para mim. Quando vinha embriagado jogava a marmita, e tinha um pacote de doce nas mão. Ás vezes era suspiro, outras vezes doce de leite, paçoca, ai tentava subir a escada e ficava ali mesmo.
A casa era rústica, com uma grande mesa de madeira, um fogão à lenha vermelho ou seja cimentado com vermelhão. Onde minha mãe que também trabalhava deixava o almoço e o café pronto em cima da chapa.
Água vinha de um poço que era retirada com sarilho, tive duas irmãs, na época a Conceição que ficava comigo, quando o meu pai e minha mãe não estava em casa. É isto mesmo eu tomava conta de minha irmã, que chorava muito, pois nasceu com alguns problemas que na época pouco entendia. Para ela não chorar muito colocava-a num carrinho a mão feito de madeira e ficava empurrando no terreiro frente de casa. Era um local que ninguém ia lá. Quando ela dormia levava par dentro da casa e colocava-a na caminha.
Minha mãe acabava de fazer suas faxinas, ou quando ia lavar roupas terminava e corria para a casa. Éramos muito pobre. Havia noite que sentávamos num banquinho de madeira e ela entoava alguns cantos e alguns infantis o que permitia dormimos a minha irmã e eu, quando não ela contava aquelas estorinhas bobas de lobo mau, do tango lo -ro que era um pássaro que jamais vi. É mãe tem essas imaginações. Ou então aquela conversa de religião, que dava era muita risada. Para mim histórias sagradas sempre foram muito engraçadas, existe muitos milagres.
Passei a ter uma certeza aos 5 anos pois tive as hérnias estouradas, e num esforço grande seguimos até a Basílica menor de Nossa senhora Aparecida, no Bairro Boa Vista onde fomos rezamos acendemos vela e saí dali sentindo melhor e nunca mais falei nada de hérnia. e minha mãe alou viu foi Oxun que te curou. Ai fiquei sem resposta. Talvez a minha fé é que foi despertada e pelo meu desejo de melhoras.
Minha mãe era como todos os brasileiros, ia na tenda do irmão sei lá, ia na Igreja Católica, ia no Centro Espirita e acabou chegando num terreiro de Umbanda do Cacique da Mata Virgem, da mãe Linda, uma senhora fantástica, trabalhadora, humanista. Fomos vizinho dela mais tarde. quando fomos morar no Jardim Vitória Regia. Porém nesta época minha mãe teve um sonho e saiu procurando o Terreiro do Oxóssi e encontrou lá no Bairro Anchieta, na Rua Itanhanhém onde passou a frequentar e virou umbandista.
Eu tive uma educação muito rígida e de muita observação. Severa porém de muita observação que seguia em casa a risco. Eu desde criança sabia das dificuldades que se encontra numa casa. Sabia que as crianças precisam sempre respeitar os mais velhos, e colaborar para a harmonia da casa e em 1960 exatamente quando tinha 5 anos nasceu a minha irmã a Maria Natalina a cara chata, como gostava carinhosa de chamá-la.
Maria Natalina nasceu no dia 9 de dezembro de 1960, logo pela manhã minha mãe pede para ir atrás da parteira, eu fui correndo, quando um cachorro bravo veio atrás de mim ali quase chegando na Rua Santos Dumont voltei para trás e ui novamente até chegar na casa de minha avó Maria que morava com a minha bisavó a dona Gertrudes, no fim da Rua Vital Brasil.
Dona Gertrudes disse : menino Zico, que quer aqui. Eu respondi que minha mãe estava tendo o bebe e que precisava chamar a parteira. Ela falou já vou chamar. E assim foi lá uma tal de Dona Rosa que chegou em tempo.
Enquanto isto fui para a Vitória Regia, onde residia a minha avó materna a dona Ana, que também assustou com a minha chegada.
Dona Ana disse assim Oxente você aqui, e eu respondi sim a minha mãe está tendo um bebê e vim aqui para a senhora ajudar lá em casa. E assim ela imediatamente correu vou pegar um pouco de lenha, duas galinha para fazer o pirão. E voltamos a pé neste quase 5 km entre a Vitória Regia até a Vila Elvira.
Em casa havia um cheiro forte de cachaça e erva cidreira, parecia que havia um ritual lá e meu pai, que estava trabalhado no Paraná, voltou. Ele estava com uma camisa amarela, diferente daquelas que tinha observado ele, na escada que ia para o quarto. E avisou que não tinha dinheiro. Ficou um pouco e logo saiu. Parece que nem importou-se para sua segunda filha que nascera. Pelo menos assim acreditei. ´
Logo passando alguns dias depois do ano novo em 1961, estava eu brincando com meus dois tios no terreiro, chutando uma bola, eu que nem sabia porque ter que dar um chute num brinquedo de borracha e vi a mesma correr para o outro lado da cerca. Local onde havia um lixo e minha irmã tentou pegar a bola e machucou o pé, tendo uma rosca de gaveta entrado no seu pé e ao retirar ficou muito ferida. Era um domingo. A minha irmã começou a chorar e meu pai que tinha passado a noite na farra, como dizia minha mãe, levantou esbravejando.
Mandou a Conceição calar a boca, disse que ele nunca tinha chorado. E toda aquela estupidez de quem estava curtindo uma ressaca. Foi quando minha mãe tomou uma decisão de ira pra casa da minha avó, e esse foi o pivô da separação. Um machucado no pé da criança.
Assim ela juntou algumas roupas, pegou as duas crianças e meus tios Mané e Dirceu, ajudaram a caminha até a casa de minha avó, deixou o açúcar e a farinha de mandioca na janela. Era o único alimento daquela casa. E o negrão de meu pai havia gasto todo o dinheiro na noite.
Sabia desde criança que não devia ter o meu pai como modelo de homem. E logo quando tinha aproximadamente seis anos, o meu pai foi embora. Lembro que estava na minha avó quando lá ele compareceu no início da noite, eu estava sentado num alpendre num escuro, pois antigamente não havia luz elétrica e eu observava as estrelas e os vagalumes que enfeitavam a noite de brilho.
Minha mãe não sabia mas ele já tinha negociado o terreno que haviam comprados para construir a nossa casa. Ficamos sem nada, porém não perdemos a dignidade. Minha mãe continuou a trabalhar era de empregada, de lavadeira, de roceira, em armazéns, ou seja se virando para criar os filhos e dar dignidade, para nós enquanto família.
A minha infância foi como um laboratório, em que aprendi a respeitar o próximo, entender a vida minha e de quem está sempre ao meu lado, de compartilhar momentos de aprendizado, de ir no terreiro e aprender a tocar o atabaque, de entender as relações entre os seres humanos e a natureza, e aos 8anos Fui para a escola. Onde estudei e aprendi que o conhecimento é fruto de uma vida. Lá juntamente com os meus amigos o Wilsinho, que hoje trabalha na Prefeitura ou talvez já tenha aposentado o Tadeu que virou professor de Educação física e já faleceu. E o Murilo o Zé Capeta, amigos que nunca mais esqueci. E o Jose Augusto Hidalgo que em 1966 colega que juntos plantamos uma árvore na E E Cenobelino de Barro Serra, e ele chama até de Eder Jofre é que peguei uma luva de boxe lá na Escola e disse uns versos que eternizaram na festa do dia do trabalho.
Por isso sempre lembro essa fase inicial do meu processo de educação, de família e isto o é o que meu filho Tiago Vinícius, tens notado e falado. É um período de plena evolução como um laboratório de minha existência, já sobre o meu pai, prefiro lembrá-lo dentro do caixão. Dia 19 de novembro de 1995 ele faleceu. Despedi dele pensando em qual papel ele deixou para orgulhar-se dele. É melhor esquecer. O tempo ensina a gente a tocar a vida, crescer e entender que cada um de nós somos seres que estamos aqui para iluminar-se, florescer existir, resistir e amar imensamente.
Manoel Messias Pereira
professor, cronista e poeta
São José do Rio Preto -SP.
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